Dança, Fé e Consciência: Um Chamado Contra a Intolerância e o Racismo


 

Depois de um tempo em silêncio, retomo este espaço que, por tantos anos, foi lugar de partilha, aprendizado e edificação. Voltar a escrever aqui não é apenas um retorno à rotina, mas também um posicionamento. E hoje, quero falar sobre algo necessário, urgente e, muitas vezes, evitado dentro do nosso próprio meio: a intolerância religiosa e o racismo dentro da Igreja, especialmente quando se trata da dança e da música.

Estamos próximos de duas datas muito importantes: o Dia Internacional de Luta Contra a Discriminação Racial (21 de março) e o Dia Internacional em Memória às Vítimas do Comércio Transatlântico de Escravos (25 de março). Essas datas nos convidam à reflexão — não apenas histórica, mas também espiritual e prática.

Como ministérios de dança, precisamos nos perguntar: temos sido agentes de cura ou de exclusão?

Mercedes Batista e o ballet negro


A dança, como expressão artística e espiritual, não nasceu em um único lugar. Ela atravessa povos, culturas e histórias. No Brasil, grande parte da riqueza rítmica, corporal e expressiva que conhecemos hoje tem raízes profundas nas culturas africanas e afro-brasileiras. Movimentos, musicalidade, relação com o chão, uso do corpo como instrumento de expressão — tudo isso carrega heranças que não podem ser ignoradas.

No entanto, por muito tempo, dentro de alguns espaços evangélicos, essas origens foram rejeitadas, demonizadas ou tratadas com desconfiança. Ritmos foram proibidos. Movimentos foram considerados impróprios. Expressões culturais inteiras foram associadas ao pecado, simplesmente por sua origem.

Isso é grave.

Quando rejeitamos algo apenas por ser de origem africana ou afro-brasileira, sem conhecimento, sem diálogo e sem discernimento, corremos o risco de praticar racismo — ainda que não intencional. E como Igreja, somos chamados a algo maior: ao amor, à verdade e à justiça.

Mas há também um outro problema que precisa ser enfrentado: não basta rejeitar — também não podemos nos apropriar de forma desrespeitosa.



Apresentação de Schikatt, de origem marroquina e berbere



Tem se tornado comum ver apresentações que, em nome de “missões” ou “dança profética”, utilizam elementos da cultura africana como se fossem fantasias. Roupas, pinturas, acessórios e gestos são usados de forma genérica, como se a África fosse uma única cultura, quando na verdade estamos falando de um continente com mais de 50 países, centenas de povos e uma diversidade imensa de tradições.

Isso não é honra — é redução.

Da mesma forma, já vimos tentativas de criar uma espécie de “versão gospel” de expressões afro-brasileiras profundamente ligadas ao sagrado de outras religiões. Um exemplo recente, ocorrido no carnaval de Recife, mostrou um grupo utilizando movimentos associados a uma divindade específica, mas substituindo a música por uma canção evangélica. Esse tipo de prática não é diálogo cultural — é apropriação.

E apropriação desrespeitosa.

Precisamos ser claros: não devemos utilizar elementos culturais como fantasia, nem recorrer a práticas como blackface, nem tentar “adaptar” ou “higienizar” expressões afro para que se encaixem em padrões cristãos. Isso apaga significados, desrespeita histórias e fere pessoas.

Respeitar também é saber o que não nos pertence.


Festival Afro-Americano de Dança


Outro ponto que precisa ser tratado com seriedade é a forma como muitos cristãos enxergam as religiões de matriz africana. É comum ouvirmos que essas religiões são “demoníacas” e que suas entidades são “demônios”. No entanto, essa associação não encontra base bíblica direta.

Na Bíblia, quando há menção a outros deuses, a orientação dada ao povo de Deus é clara: “não terás outros deuses diante de mim”, “não se curvem a outros deuses”. Ou seja, trata-se de uma instrução de fidelidade — não de uma redefinição das divindades de outros povos como demônios.

Além disso, os textos bíblicos que mencionam demônios não associam esses nomes às divindades de outras culturas. Ou seja, não faz sentido, do ponto de vista bíblico, apropriar-se do sagrado de outro povo e reinterpretá-lo automaticamente como algo maligno dentro da fé cristã.

Isso não é zelo — é distorção.


Centro Cívico de Lagos, maior cidade da Nigéria


E quando falamos de África, também precisamos romper com narrativas equivocadas. Ainda hoje, há quem diga que o continente africano “não prospera” por causa de suas práticas religiosas. Essa afirmação ignora completamente a história.

A África foi — e em muitos aspectos ainda é — marcada por séculos de colonização, exploração, violência e saque por potências estrangeiras. Povos foram escravizados, riquezas foram retiradas, culturas foram apagadas ou desvalorizadas. As consequências disso são profundas e duradouras.

Reduzir essa realidade a uma questão religiosa não apenas é incorreto — é injusto.

Além disso, a imagem de uma África homogênea, composta apenas por aldeias pobres, fome e doença, não corresponde à realidade. O continente é diverso, com grandes centros urbanos, produção cultural rica, desenvolvimento em várias áreas e histórias de resistência, sobrevivência e reconstrução.

Honrar a cultura africana e afro-brasileira também passa por reconhecer essa história.


Luanda, Angola


É importante entender que aprender técnicas e fundamentos de danças africanas e afro-brasileiras não significa adotar práticas religiosas de outras crenças. Significa reconhecer a contribuição cultural desses povos, valorizar sua história e aprender com a riqueza de seus movimentos, com respeito e consciência.

A dança africana nos ensina sobre conexão com a terra, consciência corporal, força, ritmo e coletividade. A dança afrobrasileira carrega resistência, identidade e memória. São saberes que podem enriquecer profundamente a dança cristã, desde que sejam abordados com honra e responsabilidade.

Como cristãos, não somos chamados a apagar culturas, mas a agir com sabedoria diante delas — com sensibilidade, respeito e amor. Isso exige estudo, escuta e humildade.


Tatiana Campêlo, professora e coreógrafa de dança afrobrasileira na Escola de Dança da Funceb


Dentro das vertentes da dança gospel — seja na dança profética, espontânea, de adoração ou de júbilo — há espaço para diversidade. Há espaço para expressões que dialogam com diferentes histórias e corpos. Há espaço para uma dança que não apenas louva, mas também reconcilia.

Precisamos romper com preconceitos. Precisamos rever discursos. Precisamos ensinar às novas gerações que é possível dançar com excelência técnica, profundidade espiritual e consciência histórica.

Honrar as raízes não diminui a fé — pelo contrário, amplia nossa compreensão do Corpo de Cristo, que é diverso, plural e cheio de beleza.

Que nossas coreografias não sejam apenas movimentos, mas mensagens.

Que nossos ministérios não sejam apenas apresentações, mas pontes.

E que nossa dança, além de louvor, seja também um testemunho de amor, respeito e justiça.




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